quarta-feira, agosto 22, 2007

Vai, Dunga

Imagine que você é treinador da seleção de futebol de um país tropical. Como esse país tropical é também abençoado por Deus, nele nasceram os dois maiores jogadores de futebol dos últimos tempos, e você tem a opção de contar com eles na sua seleção. Não por coincidência, os clubes pelos quais esses dois jogadores atuam têm as equipes mais bem-sucedidas do mundo, que conquistaram títulos nacionais e costumam avançar em torneios continentais. Por isso e por serem peças fundamentais em seus times, esses jogadores participam de muito mais jogos do que a média de seus colegas, e o consequente desgaste é inevitável. Para gozarem de um período de descanso decente, eles pedem dispensa de um torneio do qual a seleção do país tropical participa, torneio que nunca foi prioridade para essa seleção.

Após suas merecidas férias, esses jogadores retornam e são novamente convocados para a seleção. O que você, treinador, faz:

a) Compreende a situação, dá a eles um "welcome back" e os escala em seu time.
b) Não gosta muito da história da dispensa, mas como eles são os melhores do mundo e aceitaram de bom grado voltar à seleção, coloca eles no time, paciência.
c) Convoca os dois, mas deixa claro que eles iniciarão a próxima partida como reservas de um jogador que andou pelo banco de um time da Ucrânia, e agora atua em um time de terceiro escalão da Inglaterra e um outro que acabou de ser rejeitado por um time de primeira linha da Inglaterra e não sabe onde vai atuar nesta temporada.

Vai, Dunga. Vai pra casa.

terça-feira, agosto 07, 2007

Ignorância ou má fé?

O Reinaldo Azevedo achou esta pérola na Folha de SP de hoje, de autoria de um tal Marcos Nobre (professor da Unicamp, segundo consta):

"A superlotação das prisões é a outra face do Real e do modelo de desenvolvimento que inaugurou. As exportações e o investimento externo continuam crescendo na mesma proporção do aumento da violência."

Ora, achamos a solução para a superlotação das prisões. É só trocar o nome da moeda e mandar o Banco Central cuspir moeda na praça a um ritmo frenético. Assim, teríamos uma nova moeda, tão vagabunda quanto os cruzeiros, cruzados e afins do passado, e o problema das prisões estaria resolvido. Talvez fechar o país e proibir exportações e entrada de capitais externos também ajude. Da mesma forma que a queda no número de piratas no mundo explica o aquecimento global (ver gráfico abaixo), o "neoliberalismo" explica o aumento da população carcerária no Brasil. Brilhante!

Ironias à parte, é difícil saber qual a proporção entre pura ignorância e a mais completa má fé do autor. Como se trata de um professor de uma das mais prestigiadas universidades do país, ambas as hipóteses são igualmente deploráveis.

sexta-feira, julho 20, 2007

Uma imagem vale mais...

Esta é uma das imagens mais emblemáticas do governo Lula. Congratulações ao cinegrafista que teve a felcidade de capturá-la. Ao invés de pensar em soluções, os çábios assessores comemoram o encontro do bode expiatório do acidente, que mencionei no texto abaixo: foi o reverso da turbina! Foda-se a TAM! Fodam-se os críticos do governo! Lavamos nossas mãos!

Os jornais dizem que Lula vai se pronunciar hoje. Ele deveria anunciar a demissão da diretoria da Infraero, do ministro da defesa e dos dois cidadãos aí do lado. O que vai acontecer é a auto-exaltação habitual, dizendo que "acidentes acontecem", "nunca nestepaiz foi tão seguro voar" e "não tem nada errado com o nosso transporte aéreo". Eu continuo torcendo pela crise econômica. Quebra, mercado imobiliário americano! Volta, inflação!

quinta-feira, julho 19, 2007

Só a ponta do iceberg...

Em 24 horas Jack Bauer é capaz de salvar o mundo, mas o nosso presidente não consegue ir a público para, pelo menos, manifestar alguma consternação com o maior acidente da história da aviação brasileira. Isso para não mencionar que a empresa que administra os aeroportos é estatal, assim como o controle de vôo e, tirando as companhias aéreas, quase tudo que diz respeito a transporte aéreo no país. Se acrescentarmos que este é o segundo acidente gravíssimo em menos de um ano que, ao menos parcialmente, parece ter como responsáveis profissionais subordinados ao governo federal, temos a impressão de estarmos vivendo dentro de uma piada, de humor negro e extremo mau gosto.

O restante do enredo da piada já é conhecido, e o desfecho só tem graça para o grupelho que está tentando se perpetuar no poder: começa-se uma investigação em busca dos responsáveis, que vai se atolar em informações desencontradas, má vontade e incompetência. Depois de meses, quando os ânimos da população e da oposição estiverem esfriados, será encontrado um bode expiatório: o piloto, a Airbus, São Pedro, Baal... E a roleta russa do transporte aéreo no Brasil continuará. Até quando?

Lula e seu séqüito de çábios (será que o dr. Mangabeira Unger já está pensando em uma “ação de longo prazo” para o transporte?) precisam perceber que, no momento, mais importante do que tentar achar culpados para a tragédia passada é tomar providências para que eventos do mesmo tipo não se repitam no futuro (como se precisássemos de mais uma tragédia para lembrar disso...). É inadmissível que o governo não consiga liberar recursos ou organizar uma parceria com a iniciativa privada para investir em obras de infra-estrutura tão urgentes. Tão inadmissível que só é possível encontrar explicação para tanto descaso na mais simples e descarada falta de vontade. Afinal de contas, Lula governa para “o povo”, o que exclui a “elite”, da qual fazem parte os cerca de 15 milhões de brasileiros que utilizam transporte aéreo em um ano. Estes, que relaxem e gozem.

A estupidez brutal que está fazendo o governo perder uma das maiores oportunidades (só para lembrar, crescimento global exuberante, confortável situação externa do país, inflação baixa, alta popularidade do presidente e elevada confiança da população) de sua história para promover reformas que colocariam o país no caminho do desenvolvimento de longo prazo é pequena perto da crueldade que é submeter, por puro desleixo e incompetência, tantos cidadãos a inúmeros transtornos e riscos. A Tailândia entregou no ano passado um aeroporto internacional novíssimo, ao custo de US$ 3 bilhões, com capacidade para 45 milhões de passageiros por ano – mais do que o dobro do tráfego anual de Congonhas. O Brasil não teria a menor dificuldade de levantar, no mercado internacional, a juros baixos e prazos longos, esse montante (o impacto na dívida pública seria irrisório), para ficar em apenas uma das soluções mais simples. De onde se vê, novamente, que o problema passa longe da falta de acesso a recursos.

Outra medida bem-vinda seria a privatização da Infraero e do controle aéreo. O capitalismo pode não conseguir salvar o mundo, mas é terrivelmente eficiente em fiscalizar companhias. Ao contrário do que observamos hoje no estatismo brasileiro, empresas privadas não gozam do benefício da dúvida – haja vista o que aconteceu hoje com os preços das ações da TAM. Na incerteza da culpa e das conseqüências, o mercado puniu os acionistas da empresa com uma perda de 8.6% do capital investido. Se isso for um exagero momentâneo, será corrigido rapidamente. Se não, os acionistas poderão pressionar a direção da empresa para que seu valor seja recuperado. Esse sistema de “enforcement”, ainda que também sujeito à distorções, jamais conseguirá ser igualado pelo nosso sistema judiciário. A observação dos analistas e investidores, se não sempre precisa, é temida e ininterrupta, pelo simples fato de envolver dinheiro muitas vezes conseguido à duras penas.

O colapso do transporte aéreo nacional e suas centenas de vítimas fatais é apenas uma das faces do imobilismo, leniência e descaso de nossos governantes. Desde o dia em que tomou posse na presidência, o PT apenas tem se preocupado em aparelhar a máquina estatal e o partido, aliciar o maior número possível de aliados e tentar garantir a permanência no poder. Teve a sorte de encontrar uma conjuntura econômica rara e absolutamente benigna, que fez com que o país entrasse em uma rota de estabilidade e crescimento razoável sem muitos sacrifícios. A maioria da população, sem acesso à informação e observando uma melhora considerável no padrão de vida, não enxerga a corrosão lenta e constante do estado: o sucesso econômico age como um grande tapete, para baixo do qual é varrida toda a sujeira gerada por nossos políticos.

Assim como eu torci para que a seleção de futebol se arrebentasse na Copa América, para que houvesse a possibilidade de que fosse notada a idiotice que é colocar um amador para ocupar um cargo de importância (você entraria num prédio projetado por um estudante de segundo ano de engenharia civil?), me resta esperar por uma crise econômica de grandes proporções até 2010. A oposição, desagregada e inoperante, não parece capaz de lançar uma alternativa ao lulismo, de forma que só uma deterioração nas condições de vida de grande parte da população pode fazer com que o país mude seu voto e tenha a possibilidade de sair do atual ciclo de mediocridade institucional e operacional. Eu costumo dizer que, se, em 2010, o país estiver crescendo a 5% ao ano, com inflação baixa e continuidade dos programas sociais mais rudimentares, Lula elege dona Marisa como sua sucessora. É evidente que isso carrega uma boa dose de brincadeira, mas neste caso o tal fundo de verdade é simplesmente assustador.

terça-feira, julho 10, 2007

Economistas, Esses Seres Estranhos...

Sabendo que trabalho como economista, vários amigos costumam perguntar como são feitas projeções sobre juros, câmbio, inflação e outras variáveis macroeconômicas. Hoje o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, proferiu um belo discurso sobre expectativas de inflação e como projetar a inflação futura que responde a essa questão com muito mais propriedade e elegância do que eu seria capaz. Com o seu habitual tom professoral (quanta diferença do quase esoterismo do seu antecessor...), ele sugeriu que até o banco central mais poderoso do mundo é sujeito à velha e boa "dedada" (ou "chute orientado" - tradução para "guesstimate", para ser mais polido). Nas palavras dele (grifos meus):

"The Board staff employs a variety of formal models, both structural and purely statistical, in its forecasting efforts. However, the forecasts of inflation (and of other key macroeconomic variables) that are provided to the Federal Open Market Committee are developed through an eclectic process that combines model-based projections, anecdotal and other "extra-model" information, and professional judgment. In short, for all the advances that have been made in modeling and statistical analysis, practical forecasting continues to involve art as well as science."

O brilhante Laerte, anos atrás, já havia resumido isso a uma tirinha de 15 centímetros:

Enough said...

sexta-feira, junho 15, 2007

Rabbit, Run

Anteontem tive o imenso prazer de comparecer a um encontro com o escritor peruano Mario Vargas Llosa, por conta do relançamento, em Português, de dois dos seus romances: “A cidade e os cachorros”, a sua primeira obra do gênero, lançada na Espanha quando ele tinha apenas 26 anos e “Pantaleão e as visitadoras”, talvez seu livro de maior sucesso popular, de 1973. Vargas Llosa ganhou projeção fora do mundo literário em 1990, quando se candidatou à presidência do Peru. Com uma agenda radicalmente liberal e reformista, que visava recuperar o país do colapso econômico do primeiro mandato de Alan García e livrar o país do terror imposto pelo Sendero Luminoso, ele despontou inicialmente como grande favorito, sendo, porém ,derrotado nas últimas semanas de campanha por um obscuro engenheiro chamado Alberto Fujimori. Este passou à condição de ditador dois anos depois, em um bizarro “auto-golpe de estado”, que desviou mais uma vez o Peru do caminho da democracia. Posteriormente, Vargas Llosa narrou suas desventuras na corrida presidencial (alternadas com memórias de sua infância e adolescência) em “El pez em el agua” (que, salvo engano, não foi traduzido para o Português).

Embora curta, a trajetória política de Mario Vargas Llosa é tão excitante quanto a sua extensa carreira como escritor, e por isso fiquei um pouco decepcionado pelo fato de o debate ter se concentrado em aspectos literários. De qualquer forma, foi uma grande oportunidade para ouvir um grande escritor (talvez um dos mais importantes do mundo ainda vivo) falar sobre suas inspirações, influências (Sartre, Faulkner, Flaubert e o nosso Euclides da Cunha, que eu ainda, vergonhosamente, não consegui digerir), técnicas e estilo. Mas o que mais me impressionou foi, em resposta a uma pergunta da platéia sobre um possível “fim da literatura”, a defesa enfática e apaixonada feita por ele do livro, esse quase esquecido em nossos dias. Segundo ele, o livro, além de uma fonte inesgotável de prazer, é um promotor da democracia. Afinal, a leitura desperta o inquietamento e o questionamento: a boa literatura é provocativa, nos mostra novas maneiras de pensar e sentir, nos traz informações de outras regiões e culturas, nos incita a comparar e relativizar. Um cidadão que lê bastante é menos passível de ser ludibriado por seus governantes, e passa a ser um vigilante, um guardião do bom-senso e um combatente do autoritarismo. Ainda no pensamento de Vargas Llosa, as ditaduras costumam ter consciência desse poder da palavra escrita, frequentemente ceifando-o por meio da censura, direta ou indireta, e da perseguição a escritores.

Ainda que se possa argumentar que Vargas Llosa tenha exagerado na importância do livro para a democracia, sua postura é perfeitamente coerente com sua trajetória como intelectual. Ele sempre usou seus romances para denunciar a fraqueza institucional do Peru e sua pobreza e desigualdade. Ele é, parafraseando uma expressão aplicada ao grande Paulo Vanzolini, um intelectual “de unha suja”, que formou suas impressões a partir de viagens, experiências pessoais e um senso agudo de observação, aliado a uma crença inabalável no liberalismo e uma aversão às arbitrariedades de qualquer governo não-democrático. Poucos chegaram em seu nível de lucidez ao analisar os problemas crônicos da América Latina: ao invés de colocar a culpa de nossa pobreza e estagnação no “imperialismo”, na exploração capitalista e na busca incessante pelo lucro, ele costuma apontar como males maiores a incompetência e as tentações autoritárias dos nossos governantes, que, num círculo vicioso, se aproveitam da falta de educação do povo e a alimentam, para perpertuarem eles próprios e seus pequenos grupos de interesse no poder.

Resta pouca dúvida de que um dos caminhos mais diretos para se quebrar esse círculo é a universalização da educação e um trabalho árduo para a melhoria de sua qualidade (não basta o que foi feito, por exemplo, no Brasil - a transformação de legiões de completos analfabetos em legiões de analfabetos funcionais). Nesse sentido, tentando seguir a lógica aplicada por Vargas Llosa, seria justo afirmar que mais educação de qualidade implicaria em mais leitores (ou seja, demandantes de livros) críticos, contestadores e em condições de tomarem decisões conscientes e informadas. Sob essa ótica, é muito interessante observar uma estatística publicada pela Unesco (infelizmente atualizada apenas até 1996), que mede o número de novos títulos de livros lançados por ano em um grupo de países (que eu transformei para termos per capita, por razões óbvias). Não é preciso muito esforço para concluir que, com pouca dúvida, a oferta de novos títulos é uma função (dentre outros fatores) da demanda percebida por livros (duh...) e, consequentemente, do interesse da população de um determinado país por informação e conhecimento. O gráfico abaixo (clique para aumentar) deixa pouca dúvida de que Vargas Llosa está pelo menos vagamente correto. Os países no topo desse ranking são as democracias mais avançadas do mundo que, com frequência, aparecem na frente em comparações de outros diversos indicadores de desenvolvimento. Nosso Brasil e o Peru de Vargas Llosa fazem companhia a uma série de outros subdesenvolvidos, e devem continuar lá enquanto não passarem por profundas reformas (é curioso também observar como os Estados Unidos destoam de outros países ricos, mas isso é tema para outra longa análise).

Divagações econômicas à parte, a idéia era render uma homenagem a um dos mais brilhantes ficcionistas e intelectuais do nosso continente, na ocasião de sua passagem por São Paulo. É com esse espírito que encerro este texto. Devemos muito a Vargas Llosa pela qualidade de sua arte, mas deveríamos muito mais se passássemos a seguir seu inconformismo com a desonestidade, a ignorância e o obscurantismo que, muitas vezes, nos são impostos. Vida longa para "el conejo"!

O Tamanho do PIB do Brasil - Atualizado

Eu tinha comentado no post anterior que, por conta da valorização do real nos últimos anos, os resultados da comparação dos PIBs estaduais com outros países usando dados mais atualizados seria um tanto diferente - afinal de contas, se computado em dólar, o PIB brasileiro teve, desde 2004, o verdadeiro espetáculo do crescimento (60.8%), e agora o "nosso guia" pode apregoar que pela primeira vez na história estepaiz tem um PIB maior que um trilhão de dólares.

Resolvi fazer outro exercício simples para ver qual seria essa diferença: com os últimos dados do PIB anual (2006), calculei os PIBs estaduais mantendo a mesma proporção de 2004 (claro que nesse período devem ter havido mudanças na distribuição regional do produto, mas não as considerei), o que acho que é mais ou menos o que o Leonardo Monasterio fez no blog dele (aliás, ele também fez mapas similares com expectativas de vida para os estados do Brasil e dos EUA, vale conferir). Com esses dados, refiz o mapa (agora em uma resolução bem melhor), e os resultados está aqui:




Com os novos dados, São Paulo ganhou fiordes, a deslumbrante Dubrovnik virou vizinha da Praia do Rosa, Fauzi Beydoun deve estar muito orgulhoso pelo Maranhão ter assumido o nome de Jamaica e, mesmo que quisesse, eu não conseguiria produzir ironia semelhante a substituir o Rio de Janeiro pela Colômbia (com a ressalva de que eu estive em Bogotá e Cartagena no começo deste ano e tive a impressão de que, de fato, as coisas mudaram muito - e para melhor - por lá).

A tabela com os novos dados:


quinta-feira, junho 14, 2007

O Tamanho do PIB do Brasil

Um dos favoritos da casa, o Viaje na Viagem, postou um mapa dos EUA que substitui o nome dos estados por países com o mesmo PIB. O Riq disse que seria engraçado se alguém fizesse um similar para o Brasil, e eu gostei da idéia e resolvi usar os meus (escassos) dons de economista para executá-la. O resultado está aí. Para o Brasil, usei os dados do PIB por estado publicados pelo IBGE, comparando com os números dos países que o FMI disponibiliza no World Economic Outlook. Infelizmente, os últimos dados disponíveis pelo IBGE são de 2004. O resultado hoje seria um tanto diferente, principalmente porque, para comparar os PIBs, tive que transformar todos para dólar, e o real se valorizou muito desde então (para se ter uma idéia, o PIB do Brasil em dólares era, em 2004, algo em torno de US$ 664 bilhões, tendo passado para mais de US$ 1 trilhão em 2006). De qualquer maneira, acho que a brincadeira é válida, e dá uma idéia de quão grande o nosso país é economicamente. É interessante ver que o PIB de São Paulo, por exemplo, equivalia ao da África do Sul, o maior país do continente africano (na verdade, em 2004, o PIB do Brasil era bem pouco menor do que o PIB de TODA a África - 61 países e 900 milhões de pessoas - o que também é um sinal de que a discussão sobre pobreza por lá tem que ser em outro patamar).

Para os mais detalhistas, os dados que usei estão abaixo (é só clicar para aumentar):

















quinta-feira, maio 10, 2007

Sobre dinheiro e governos

Notícia de hoje, no embalo da visita do papa a São Paulo:

A Fundação Cacique Cobra Coral, especializada em monitoramento das condições atmosféricas, avisa que foi convocada pela Prefeitura para garantir tempo bom na capital paulista durante a visita do papa Bento XVI. A operação, que a FCCC vem realizando desde o domingo, foi no sentido afastar 90% das chuvas previstas para a capital e desviá-las para o Sul de Minas Gerais, onde uma estiagem castiga a região. Mas as previsões meteorológicas afirmam que a temperatura durante a missa no Campo de Marte não deve ultrapassar os 10 º C.

A Fundação Cacique Cobra Coral, para quem não sabe, utiliza-se de uma médium, que incorpora o espírito do tal cacique e clama ter poderes capazes de influenciar o tempo e de fazer previsões sobre eventos de relevância mundial.

Estúpido o bastante, esse é um dos usos declarados dos impostos pagos pelos paulistanos. Imagine o que não é feito de forma mais velada. Como remédio, só resta evocar a racionalidade do saudoso Milton Friedman:

"There are four ways in which you can spend money. You can spend your own money on yourself. When you do that, why then you really watch out what you’re doing, and you try to get the most for your money. Then you can spend your own money on somebody else. For example, I buy a birthday present for someone. Well, then I’m not so careful about the content of the present, but I’m very careful about the cost. Then, I can spend somebody else’s money on myself. And if I spend somebody else’s money on myself, then I’m sure going to have a good lunch! Finally, I can spend somebody else’s money on somebody else. And if I spend somebody else’s money on somebody else, I’m not concerned about how much it is, and I’m not concerned about what I get. And that’s government. And that’s close to 40% of our national income."

sexta-feira, dezembro 22, 2006

2007

Uma ressalva a ser feita: o Natal existe há 2006 anos. O ano-novo, como o conhecemos, pelo calendário gregoriano, há mais de quatro séculos. Daí a dificuldade de se encontrar algo original e relevante a dizer no atual momento: em todo esse tempo, creio que esgotaram-se adjetivos, votos e pensamentos positivos. Obviamente, como menino de mentalidade mediana que sou, não conseguirei fugir da sina de apenas repetir, talvez numa ordem diferente, algo que já foi dito e revisitado e esquecido e relembrado durante esses anos.

Fiquei muito tempo pensando no que desejar para os meus amigos neste momento, além do básico saúde-dinheiro-paz-felicidade-amor. Por fim, resolvi torcer para que todos, transferindo algo que desejo muito para mim, tenham muito tempo livre em 2007.

Tempo livre, como se sabe, é um artigo muito raro nas nossas vidas frenéticas de aspirantes a adultos. Temos que trabalhar, estudar, dirigir, cumprir com obrigações sociais... tantas tarefas que fazem com que as 24 horas do dia muitas vezes pareçam ridiculamente insuficientes. Mais ainda quando pensamos na quantidade de prazeres dos quais temos que abdicar para parecermos cidadãos de respeito. Torço, portanto, para que encontremos tempo livre para nos dedicarmos às nossas famílias, amigos e demais pessoas queridas. Para que consigamos ler bons livros, ouvir sinfonias ou funks pancadão, visitar uma boa exposição de arte. Para que possamos filosofar, pensar no futuro da humanidade, nem que seja para que logo depois concluir com um “sei lá... sei lá... a vida tem sempre razão”. Tempo para dançar, namorar, montar um quebra-cabeças, fumar um charuto. Tempo até para pensarmos no que faríamos se tivéssemos mais tempo, ou no que compraríamos quando finalmente formos premiados na mega-sena. Enfim, tempo para a dita inutilidade, que, no fundo, é o que contribui para que o mundo ainda não tenha se tornado um aborrecimento completo, uma disputa de cachorros correndo atrás do próprio rabo.

Em resumo, divirtam-se em 2007!

terça-feira, novembro 28, 2006

O Procrastinador

A mente do procrastinador é doentia e ágil, muito ágil. Uma vez identificada a tarefa a ser realizada, ela calcula rapidamente, com uma precisão espantosa, quanto tempo será necessário para concluí-la. Depois, ocupa-se com outras tarefas completamente distintas e desconexas, até que soa um alarme avisando que só resta o tempo mínimo anteriormente calculado. E o corpo que se vire em suor, cabelos brancos e neurônios queimados para executar a tal tarefa. Na mente do procrastinador, o subconsciente domina o consciente, o racional é passado para trás.

Este texto é obra da mente de um procrastinador.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Chora, Brasil

É de morrer de rir o nível das discussões de política econômica para o próximo mandato presidencial. Ou melhor, seria de morrer de rir se não fosse de chorar, já que as decisões dos sábios de Brasília afetarão diretamente nossas vidas nos próximos anos.

Pois bem. Quando Lula foi eleito presidente, em 2002, sua equipe econômica tinha como missão principal estabilizar o que o próprio PT tinha desestabilizado. Ou seja, combater os efeitos do terremoto ocorrido naquele ano no mercado financeiro, causado pela absoluta falta de confiança dos agentes no então candidato que liderava as pesquisas. A onda especulativa jogou o câmbio para perto dos R$ 4,0 / US$, a inflação para 12,5% ao ano, o spread do C-Bond (o título da dívida externa mais negociado na época) para mais de 2000bps (ou seja, juros anuais 20% acima de um título americano equivalente) e forçou, posteriormente, o Banco Central a levar os juros básicos para 26,5%. A situação, que colocava o país na beira do abismo do calote da dívida soberana, requeria um choque de credibilidade, e este foi dado, em grande parte, por um Banco Central competente e um ministro da fazenda de rara habilidade política, que soube se cercar de uma equipe capaz e resguardá-la dos freqüentes ataques vindos do próprio partido, empresários, mídia e afins.

O desenrolar dessa gestão eficiente fez com que, passados quatro anos e descontadas algumas presepadas, um dólar possa ser comprado por pouco mais de dois reais, a inflação encontre-se ao redor dos 4,0% ao ano, o C-Bond tenha sido totalmente resgatado (bem como quase toda a dívida externa soberana) e a Selic beire os 13,0%, com totais condições de seguir caindo (obviamente não se pode ignorar a “ajudinha” proporcionada pelas condições de liquidez mundiais mais abundantes da história, mas não é o caso tratar delas aqui). Fez também com que o governo federal tivesse condições de pôr em funcionamento uma potente máquina de assistencialismo, que, entre outros motivos e apesar da ação de mensaleiros, sanguessugas, aloprados e outras pragas, garantiu a Lula mais de 60 milhões de votos e mais um mandato de quatro anos.

Passada a farra das eleições (como bem disse Vinícius, “dia de festa é véspera de muita dor”), chegou a hora de definir o que fazer com o Bananão de 2007 em diante. Foi quando alguém assoprou no ouvido do “nosso guia” que, nos quatro anos anteriores, o país simplesmente esquecera-se de crescer. Que tragédia! Façamos, portanto, o país crescer! 5% ao ano parece um bom número. E aí começa o FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País, para quem ainda não teve a alegria de ler Stanislaw Ponte Preta), versão novo milênio. Primeiro, execremos as políticas “anti-crescimento” (estranhamente, depois de um bom tempo estudando economia, ainda não descobri nenhuma linha de pensamento, de qualquer orientação ideológica, que vise destruir o produto. Vai saber...). Viva o desenvolvimentismo! Bem, para crescer, precisamos investir, o mesmo passarinho disse. Então, o que estamos esperando para investir?! Não tentemos implementar reformas para incentivar a iniciativa privada a fazê-lo, o governo dá conta sozinho, ao menos por enquanto!

OK, mas de onde tirar recursos para os investimentos? Vejamos: a carga tributária já é bastante alta, aumentá-la acabaria por arrochar ainda mais o setor privado. Temos também que manter um superávit primário que, no mínimo, não faça a dívida pública crescer. Mas não podemos cortar os gastos correntes! Seria um disparate, a máquina estatal precisa ser alimentada, como os companheiros vão se virar sem os seus cargos, como acomodar a base aliada, como mexer no Bolsa-Família? Reformar a previdência, também, nem pensar! O que importa se a expectativa de vida sobe sensivelmente e a idade mínima para aposentadoria é mantida? O que importa se gastaremos em breve 8% do PIB com o INSS, e que o número de idosos no país crescerá 4% ao ano no próximo quarto de século*? Não podemos mexer com os aposentados e pensionistas, que, tão generosamente, nos deram seus votos! Conclusão: não temos folga no orçamento para investir. Devemos ser criativos.

E é agora que o Festival começa a esquentar. Criatividade é o forte dos economistas-companheiros. Por que copiar o que dá certo no resto do mundo? Aqui é diferente! Aqui a água não ferve a 100ºC, nem o dia tem 24 horas. Ora, já que o governo não pode economizar, de onde podemos tirar recursos, de bate-pronto, sem pensar muito (pensar dá um trabalho...)? Fácil, uma resposta com quatro letras: F-G-T-S.

O Fundo de Garantia por Tempo de Serviço foi criado no governo Castello Branco, como forma de “compensar a extinção da estabilidade funcional nas empresas privadas”. Os empregadores contribuem, em contas individuais dos trabalhadores, com 8% do salário bruto. Os recursos do fundo (atualmente da ordem de R$ 170 bilhões) podem, posteriormente, serem sacados sob algumas condições (demissão sem justa causa, etc.), e são regidos por um obscuro Conselho Curador do FGTS (composto por representantes do governo, trabalhadores e empregadores), que, atualmente, os usa para financiar projetos de educação e saneamento. Na prática, é uma poupança compulsória, de difícil acesso e remunerada por juros escandalosamente abaixo dos de mercado (TR + 3%). Dada essa breve explicação, e voltando para a criatividade: hoje o companheiro Mantega anunciou que parte dos rendimentos da arbitragem de juros (com o dinheiro do fundo compra-se títulos que rendem, digamos, a taxa Selic) feita pela Caixa à custa do trabalhador de carteira assinada – estamos falando em até R$ 15 bilhões – será usada para financiamento de projetos de habitação popular. Não bastasse isso, seria injusto supor que, mesmo que esses projetos de fato beneficiem milhares de famílias, o dinheiro será canalizado para empreiteiras-companheiras, que devolvem parte do pagamento para outros companheiros do partido? A julgar pelo histórico recente, acredito que não.

O exemplo citado acima, creio, será apenas o primeiro de uma longa série. Enquanto puder, o PT preferirá não arriscar sua popularidade e seu capital político com reformas estruturais, tentando impulsionar o crescimento por meio de investimentos estatais com recursos obtidos por meio desses tipos de taxação disfarçada. Vão argumentar que “as elite” devem financiar benesses para os mais pobres. Mas acontece que “as elite” de verdade não dão por falta de, por exemplo, de 8% dos seus rendimentos. Esses 8% certamente fazem mais diferença para a verdadeira classe atualmente desfavorecida no Brasil, a dos trabalhadores de classe média-baixa, assalariados que não acessam os recursos do assistencialismo federal.

Deixando um pouco de lado o atentado aos aspectos essencialmente econômicos: há mais de 2.300 anos, Aristóteles ponderava que a comunidade política ideal é aquela onde a classe média é maior e mais respeitável do que as classes alta e baixa juntas. O governo está nos colocando no caminho exatamente oposto. E lá vem, de carona com o trenó do Papai Noel, o pacote fiscal de dezembro. É demais pedir um pouco de racionalidade? Talvez não, mas esperar por ela nesse ambiente é mais ingênuo do que contar com a chegada do piloto do tal trenó em nossas respectivas casas. Chora, Brasil.

* Essa estimativa é cortesia do brilhante Fabio Giambiagi, em artigo para a Folha de S. Paulo de 23/11.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Piromania

Engraçado, quando eu acendi o isqueiro e aproximei da primeira placa de compensado, achei que aquilo não ia dar em nada. O isqueirinho, chocho, daqueles que se compra em mãozada com três unidades, parecia heróico ao acender um simples cigarro, não teria capacidade sequer de sujar de fuligem uma placa de mais de três metros de área, ainda por cima meio úmida. Mas assim que o fogo lambeu a madeira eu me animei, a chama parecia que ia “pegar”, e eu, inconsciente, mantive apertado o botão que libera a saída de gás. Quando soltei o tal botão, o fogo já tomava conta de uma área do tamanho de uma caixa de fósforos, bonito, estalando – aquela porcaria de compensado, uma maçaroca de retalhos de madeira, papelão e cola, queima que nem jornal, que saudade de fazer balão-galinha! No que saí andando e olhei por cima do ombro, a fumaça já era aparente. Dei uns cinquenta passos e virei para olhar novamente, que beleza!, o fogo havia subido e estava do jeito que o diabo gosta. Quando eu cheguei em casa, depois de tomar banho e comer, liguei a televisão e vi o plantão de notícias. Três carros de bombeiro, daqueles grandes, aquelas escadas Magirus esticadas, um espetáculo! Só consegui dormir, eufórico, seis horas depois, quando o plantão voltou, avisando que o fogo estava finalmente sob controle, não havia vitmas. Estava em paz com o meu Nero interior.

quarta-feira, novembro 01, 2006

#1 - How Blue Can You Get? : Classic Live Performances, 1964-1994

Os melhores álbuns ao vivo são aqueles que trazem um show completo, com algo especial e diferente de uma gravação de estúdio (nesse sentido, B.B. King gravou pelo menos dois discos históricos, “Live in Cook County Jail” e “Live at the Regal”). Isso faz com que uma coletânea de gravações ao vivo pareça um pouco estranha: fazem falta as conexões entre as músicas do repertório, as falas dos músicos nos intervalos, as interações com a platéia; enfim, falta passar ao ouvinte a impressão de que é possível voltar no tempo e se sentir protagonista de um momento memorável.

Entretanto, B.B. King, de qualquer maneira que seja apresentado, é uma lenda da música e um brilhante entertainer, o que faz com que a audição de “How Blue Can You Get?” seja fácil e prazerosa. Aqui está uma amostra ampla de quase toda a longa carreira de B.B. King, das lendárias apresentações dos anos de 1960 e 1970 até espetáculos mais recentes (e bem mais burocráticos). Vale como amostra, para despertar o interesse pelas performances incendiárias que fizeram com que um menino do Mississippi se tornasse, com justiça, o rei do Blues.

Lá, como cá

A última edição da "Rolling Stone" americana estampa na capa: o pior congresso da história. Boa sugestão de pauta para a recém lançada versão brasileira de um dos maiores símbolos da cultura pop. Assunto não vai faltar...

quinta-feira, outubro 05, 2006

Apelando

Num lapso desesperador de criatividade, resolvi apelar. Não, não vou escrever descendo a lenha no Lula. Resolvi imitar descaradamente o Nick Hornby (não que ele seja um exemplo de lapso de criatividade, muito pelo contrário) e começar a comentar a minha coleção de discos. Para quem não sabe, eu gasto muito tempo cuidando dela, o que inclui manter uma base de dados atualizada com todas as compras, incluindo as faixas de cada disco, compositor, tempo, e por aí vai. Uma das vantagens da base de dados é que consigo saber a ordem cronológica das compras, o que vai ajudar a traçar as origens do meu (des)gosto musical e contar algumas histórias.

Provavelmente esse "projeto" não vai terminar. Tenho uns 1300 discos para comentar, o que faria com que eu levasse mais de três anos caso escrevesse, religiosamente, um texto por dia. Muita coisa pode acontecer em três anos: sendo otimista, minha veia criativa pode voltar e eu volto a escrever sobre outros temas, não necessariamente mais relevantes. Pode ser que, em mais algum tempo, eu emburreça de vez por passar boa parte do meu dia olhando para planilhas, e nem comentar sobre música eu consiga mais. "Every picture tells a story", diz a canção. Enfim, aqui começa o projeto "every disc tells a story". Divirtam-se!

sábado, junho 10, 2006

Joga Bola, Jogador

Começou. No próximo mês, não se falará mais de outra coisa. Por onde quer que se passe, os aparelhos de televisão estarão sintonizados em jogos ao vivo, vídeo-tapes, mesas de discussão, bastidores das concentrações. Nesse intervalo, o futebol fará quase todos os outros assuntos parecerem impertinentes e desinteressantes. Enfim, chegou a Copa do Mundo.

É impressionante notar como nós, brasileiros, pautamos as nossas vidas pelos mundiais de futebol. Eu não consigo me lembrar onde almocei anteontem, mas posso descrever perfeitamente as situações em que me encontrava em todos os jogos do Brasil nos últimos três mundiais. Criamos um novo calendário, onde os anos são apenas divisões secundárias, bem menos importantes. O que vale mesmo é o ano de Copa do Mundo, os demais se resumem, grosso modo, a esperar, esperar, esperar.

Em ano de Copa do Mundo, ser brasileiro vira, subitamente, motivo de orgulho. É a nossa vingança: podemos ter violência, corrupção e dívida pública indexada e de prazo muito curto, mas no futebol mandamos nós. Ingleses, italianos, alemães e (pfffffff) americanos são apenas meros coadjuvantes; quem manja mesmo de bola, como diria o Marcelo Rubens Paiva, é tupiniquim subdesenvolvido. E, neste momento, não há distinção de classes no Brasil. Seja universitário, executivo, gari ou presidiário, todos procurarão esquecer suas frustrações e encarnar em um dos 11 que estarão vestindo a camisa amarela. Para alguns, o futebol é a única válvula de escape das humilhações do dia a dia, e por isso não é tão difícil explicar alguns episódios de violência extrema que tem envergonhado tão belo esporte.

E o futebol não pode ser descrito de outra maneira se não com adjetivos exagerados. É um esporte (ou modalidade esportiva, para os puristas) absolutamente imprevisível: está para chegar o dia em que vai aparecer um matemático ou um computador capaz de modelar um espaço de 110 m x 80 m, onde 22 jogadores, com seus potenciais, limitações, criatividades, egos e idiossincrasias, tentam, com os pés, encaixar uma esfera de 69 cm de circunferência em um gol de sete metros de comprimento por 2,4 m de altura – uma enormidade paradoxal, dada a dificuldade vista na maior parte do tempo em conseguir tal feito. Tudo isso dá margem para (eu avisei que os adjetivos têm que ser exagerados) lances mágicos, aparentemente impossíveis, verdadeiras obras de arte que, como uma boa música ou um quadro expressivo, podem tanto ser frutos de treino e obstinação quanto explosões criativas e absolutamente originais, ou, o que é mais comum no futebol moderno, uma combinação harmoniosa desses dois fatores.

Muito pode ser escrito sobre futebol, e é difícil fazê-lo sem soar repetitivo. Minha contribuição fica por aqui. Em minutos começa Inglaterra x Paraguai. Torcerei pelos hermanos do outro lado da Ponte da Amizade e para que a Copa se desenrole numa final épica entre Brasil x Argentina. É delírio demais? O futebol e a tabela do mundial permitem isso. Vai, Brasil!!!

segunda-feira, maio 15, 2006

Sen, ele mesmo

Para compensar a bagunça e a falta de organização de idéias do texto anterior, um pouco da lucidez do professor Sen, bem oportuna neste momento. Aproveitem!

"Vivemos em um mundo de opulência sem precedentes, de um tipo que teria sido difícil até mesmo imaginar um ou dois séculos atrás. Também tem havido mudanças notáveis para além da esfera econômica. O século XX estabeleceu o regime democrático e participativo como o modelo preeminente de organização política. Os conceitos de direitos humanos e liberdade política hoje são parte da retórica prevalecente. As pessoas vivem em média muito mais tempo do que no passado. Além disso, as diferentes regiões do globo estão agora mais estreitamente ligadas do que jamais estiveram, não só nos campos da troca, do comércio e das comunicações, mas também quanto a idéias e ideais interativos.

Entretanto, vivemos igualmente em um mundo de privação, destituição e opressão extraordinárias. Existem problemas novos convivendo com antigos – a persistência da pobreza e de necessidades essenciais não satisfeitas, fomes coletivas e fome crônica muito disseminadas, violação das liberdades políticas elementares e de liberdades formais básicas, ampla negligência diante dos interesses e da condição de agente das mulheres e ameaças cada vez mais graves ao nosso meio ambiente e à sustentabilidade da nossa vida econômica e social. Muitas dessas privações podem ser encontradas, sob uma ou outra forma, tanto em países ricos como em países pobres.

Superar esses problemas é uma parte central do processo de desenvolvimento... ... precisamos reconhecer o papel das diferentes formas de liberdade no combate a esses males. De fato, a condição de agente dos indivíduos é, em última análise, central para lidar com essas privações. Por outro lado, a condição de agente de cada um é inescapavelmente restrita e limitada pelas oportunidades sociais, políticas e econômicas de que dispomos. Existe uma acentuada complementaridade entre a condição de agente individual e as disposições sociais: é importante o reconhecimento simultâneo da centralidade da liberdade individual e da força das influências sociais sobre o grau e o alcance da liberdade individual. Para combater o problema que enfrentamos, temos de considerar a liberdade individual um comprometimento social.

A expansão da liberdade é vista, por essa abordagem, como o principal fim e o principal meio do desenvolvimento. O desenvolvimento consiste na eliminação de privações de liberdade que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercer ponderadamente sua condição de agente. A eliminação de privações de liberdades substanciais é constitutiva do desenvolvimento. Porém, para uma compreensão mais plena da relação entre desenvolvimento e liberdade, precisamos ir além desse reconhecimento básico (ainda que crucial). A importância intrínseca da liberdade humana em geral, como o objetivo supremo do desenvolvimento, é acentuadamente suplementada pela eficácia instrumental de liberdades específicas na promoção de liberdades de outros tipos. Os encadeamentos entre diferentes formas de liberdade são empíricos e casuais, e não constitutivos e compositivos. Por exemplo, há fortes indícios de que as liberdades econômicas e políticas se reforçam mutuamente, em vez de serem contrárias umas às outras (como às vezes se pensa). Analogamente, oportunidades sociais de educação e assistência médica, que podem requerer a ação pública, complementam oportunidades individuais de participação econômica e política e também favorecem nossas iniciativas para vencer privações.

Trecho do prefácio de “Desenvolvimento como liberdade”. Companhia das Letras, 2004.

Envelhecendo na cidade

Nasci em São Paulo, há exatos 26 anos. Sempre vivi na periferia. Toda a minha vida, até entrar na faculdade, foi passada entre Campo Limpo e Capão Redondo – nomes que, de forma lamentável, evocam imediatamente lembranças das páginas policiais dos jornais. Meus amigos, do colégio e do primeiro trabalho, moravam em lugares de ainda pior reputação – Jardim Angela, Valo Velho, Jardim São Luís, Vaz de Lima...

Embora a violência urbana sempre tenha sido parte do meu cotidiano, até hoje nunca me abalei com ela. Nunca abri mão da minha liberdade, nunca deixei de ir ao colégio, faculdade ou trabalho com medo de alguma ação criminosa, mesmo muitas vezes tendo que voltar para casa em horários esdrúxulos e por transporte público. Freqüentava a casa dos amigos acima mencionados, sem medo algum. Simplesmente aprendi a lidar com a violência, ponto, e não deixá-la se tornar mais importante do que todas as outras atividades da minha vida.

Assim, consegui aprender a admirar São Paulo, a gostar de sua pluralidade, dos seus lugares, das suas pessoas... Nos últimos tempos, depois de conhecer alguma coisa do mundo, estava chegando à conclusão de que era aqui que eu gostaria de trabalhar, criar os meus possíveis filhos e envelhecer. Seria a minha forma de agradecer à cidade que acolheu meus avós, quando fugiram de Portugal; o meu pai, quando veio de Minas para concretizar suas ambições; que foi generosa comigo a ponto de eu conseguir estudar numa das melhores universidades do país sem desembolsar um centavo; que me formou homem e profissional; a cidade onde eu conheci pessoas absolutamente fantásticas, que tanto me trazem alegria e conforto.

Hoje reconsiderei tudo isso, e até agora não concluí nada em definitivo. Ou melhor, concluí. Concluí, primeiro, que quem lança boatos é um terrorista, com todas as letras, já que espalha tanto pânico quanto quem atira uma bomba. Pelos e-mails que circulavam à tarde, São Paulo estaria pior do que Fallujah. Não estava. Era tudo invenção, e, creio que por isso, milhões de paulistanos foram para a casa mais cedo, apavorados. Mas é claro que isso só aconteceu porque a estratégia de comunicação adotada pelas autoridades foi a pior possível. Ninguém sabia o que acontecia até por volta das 16h30, quando ouvi no carro a primeira entrevista de um comandante da Polícia Militar.

As autoridades responsáveis precisam tomar medidas enérgicas. Custe o que custar. Segurança pública é um preceito básico de qualquer sociedade minimamente desenvolvida – e é inaceitável que uma cidade de mais de 10 milhões de habitantes vire refém de um bando de marginais. O impacto de mais alguns dias como hoje, sob todos os prismas (econômico, social, psicológico, e por aí vai) não pode ser desprezado. O Brasil deveria tomar esses acontecimentos como o seu 11 de Setembro, e aproveitar para reformular toda a sua política de segurança pública. Bons exemplos não faltam em todo o mundo - não é preciso inovar, basta copiar! Não pode ser tão difícil. Também é inaceitável o fato de brigas políticas serem levadas em conta quando o que está em jogo é a tranqüilidade dos cidadãos: se a presença de tropas federais for necessária, elas devem ser convocadas – por mais que isso certamente seja usado com propósitos eleitoreiros, posteriormente (me enoja só o pensamento de ver Lula na TV dizendo que “salvou a São Paulo do PSDB da barbárie”).

Aliás, creio que as ações dos últimos dias terão um impacto nas intenções de voto para Geraldo Alckmin – maior do que a possível descoberta de contas suspeitas no exterior em nome do presidente Lula. Não importa se esse juízo de valor é certou ou errado; o fato é que Alckmin provavelmente pagará por ter varrido para debaixo do tapete um problema crucial. Como um amigo me disse hoje, de forma muito consciente, nada do que estamos vendo deveria ser surpresa, já que a situação geral da segurança pública não mudou de um dia para o outro – apenas levantaram um pouco o tal tapete.

Amartya Sen, o genial economista indiano, definiu desenvolvimento como liberdade, simples assim. Também por essa medida, nosso Brasil vai muito mal das pernas. Hoje eu gostaria de estar celebrando meu aniversário com os amigos, sem dor de cabeça alguma. Estou em casa, contra a minha vontade – por mais que eu não sinta medo, tenho que respeitar a preocupação dos meus pais, que é perfeitamente legítima. O Estado para o qual eu contribuo, em forma de impostos, com uma fatia da minha renda que deveria me garantir serviços públicos comparáveis aos do primeiro mundo, me entrega uma segurança pública do nível do Sudão. O problema é muito mais complexo do que se pensa, e sua solução certamente passa por uma completa racionalização de como o Estado é organizado. Combatendo um déficit da previdência pública de absurdos 8% do PIB teríamos mais dinheiro para investir em segurança. Eliminando cargos públicos inúteis, também. Criando um sistema transparente de licitações e compras do governo, idem. E por aí vai. Este ano teremos eleições presidenciais, estaduais e do legislativo. Todo cidadão deveria dar seu voto para quem privilegia esse tipo de racionalidade.

No tempo que gastei escrevendo as linhas acima, ao menos uma conclusão terrível e inevitável substituiu a ausência de conclusões de alguns parágrafos passados: entre os dois candidatos com reais chances de assumir a presidência no próximo ano, um provavelmente será provado como o chefe da quadrilha que promoveu o maior assalto já visto neste país – e dinheiro desviado em esquemas de corrupção, adivinhe!, também pode ser usado para melhorar a segurança y otras cositas más. O outro, fazendo parte há doze anos do governo de São Paulo, fracassou retumbantemente na tarefa básica e essencial de garantir segurança e, por conseqüência, liberdade aos seus cidadãos. Trata-se, portanto, de escolher o menos pior. E é deprimente, muito deprimente, não ter a menor convicção de que essa escolha contribuirá para que, daqui a quatro anos, eu tenha plena liberdade para comemorar aqui os meus 30 anos, às vésperas do Mundial da África do Sul e com os meus possíveis filhos mencionados acima. A conclusão é egoísta, mas desse particular pode-se facilmente passar para uma triste generalização.

Em se tratando de Brasil, são preocupantes os momentos em que a seleção de futebol fica em segundo plano – mais ainda em ano de Copa. Hoje toda a imprensa deveria estar destacando e comentando a convocação do Parreira. E, no lugar disso, o que se vê em qualquer fonte de notícias é o horror, o horror...

quarta-feira, maio 03, 2006

Sai pra lá, encosto!















Pé de coelho, ramo de arruda, patuá, santinho de Santo Expedito benzido pelo bispo. Carranca, figa de Guiné, potinho de sal grosso, pimenta dedo de moça. Dente de porco do mato, máscara de couro de tamanduá. Foto do Tostão comemorando o quarto gol na final contra a Itália. Seleção de mandingas escalada e devidamente alocada em cima da televisão; ele jogou o chinelo num canto, abriu a cerveja geladíssima, se afundou no sofá, meteu um sorriso no rosto e a partida começou.